{"id":367,"date":"2010-09-24T16:38:59","date_gmt":"2010-09-24T18:38:59","guid":{"rendered":"http:\/\/nandadefreitas.wordpress.com\/?p=367"},"modified":"2026-02-26T02:56:41","modified_gmt":"2026-02-26T02:56:41","slug":"em-defesa-dos-jornalistas-da-etica-e-do-direito-a-informacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/nandadefreitas.com.br\/index.php\/2010\/09\/24\/em-defesa-dos-jornalistas-da-etica-e-do-direito-a-informacao\/","title":{"rendered":"Em defesa dos jornalistas, da \u00e9tica e do direito \u00e0 informa\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:justify;\">O conceito de golpe midi\u00e1tico ganhou notoriedade nos \u00faltimos dias. O debate \u00e9 p\u00fablico e parte da constata\u00e7\u00e3o de que setores da imprensa passaram a atuar de maneira a privilegiar uma candidatura em detrimento de outra. \u00c9 leg\u00edtimo &#8211; e desej\u00e1vel \u2013 que as dire\u00e7\u00f5es das empresas jornal\u00edsticas explicitem suas op\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, partid\u00e1rias e eleitorais. O que \u00e9 inaceit\u00e1vel \u00e9 que o fa\u00e7am tamb\u00e9m fora dos espa\u00e7os editoriais. Distorcer, selecionar, divulgar opini\u00f5es como se fossem fatos n\u00e3o \u00e9 exercer o jornalismo, mas, sim, manipular o notici\u00e1rio cotidiano segundo interesses outros que n\u00e3o os de informar com veracidade.<br \/>\nSe esses recursos s\u00e3o usados para influenciar ou determinar o resultado de uma elei\u00e7\u00e3o configura-se golpe com o objetivo de interferir na vontade popular. N\u00e3o se trata aqui do uso da for\u00e7a, mas sim de t\u00e9cnicas de manipula\u00e7\u00e3o da opini\u00e3o p\u00fablica. Neste contexto, o uso do conceito &#8220;golpe midi\u00e1tico&#8221; \u00e9 perfeitamente compreens\u00edvel.<br \/>\nEste estado de coisas s\u00f3 acontece porque os jornalistas perderam for\u00e7a e import\u00e2ncia no processo de elabora\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o no interior das empresas. Cada vez menos jornalistas det\u00eam o poder da informa\u00e7\u00e3o que ser\u00e1 fornecida \u00e0 opini\u00e3o p\u00fablica. Ela passa por uma triagem pr\u00e9via j\u00e1 no seu processo de edi\u00e7\u00e3o e aqueles que descumprem a dita orienta\u00e7\u00e3o editorial s\u00e3o penalizados. Tamb\u00e9m nunca conseguem atingir cargos de dire\u00e7\u00e3o que, agora, s\u00e3o ocupados por executivos que atendem aos interesses de comit\u00eas, bancos associados, acionistas etc.<br \/>\nEsse estado de coisas n\u00e3o apenas abre espa\u00e7o para que a m\u00eddia atenda a interesses outros que n\u00e3o o do cidad\u00e3o, como tamb\u00e9m avilta a profiss\u00e3o de jornalista, precariza condi\u00e7\u00f5es de trabalho e achata sal\u00e1rios. A consequ\u00eancia mais tr\u00e1gica disso \u00e9 a necessidade de se adaptar ao &#8220;esquema da empresa&#8221; para garantir o emprego, mesmo em detrimento dos valores mais caros.<br \/>\nPara avan\u00e7ar nessa discuss\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio estabelecer a premissa de que informar a popula\u00e7\u00e3o sobre os desmandos do governo (qualquer deles) \u00e9 dever da imprensa. Orquestrar campanhas pr\u00f3 ou contra candidatos \u00e9 abuso de poder. A linha divis\u00f3ria entre esses campos \u00e9 t\u00eanue e cabe ao jornalista, respeitando o profissionalismo e a \u00e9tica, estabelecer o limite tendo em conta o que \u00e9 de interesse p\u00fablico.<br \/>\nN\u00e3o podemos incorrer no erro de instaurar na cobertura de fatos pol\u00edticos os erros cometidos em outras \u00e1reas, ou seja, o pr\u00e9-julgamento (que dispensa provas, pois o suspeito est\u00e1 condenado previamente) e o jornalismo espet\u00e1culo (que exp\u00f5e situa\u00e7\u00f5es de maneira emocional para provocar rea\u00e7\u00f5es extremadas).<br \/>\nA ideia de debater e protestar contra esse estado de coisas resultou na realiza\u00e7\u00e3o do ato em defesa da democracia e contra o golpismo midi\u00e1tico a ser realizado no audit\u00f3rio do Sindicato dos Jornalistas. A proposta surgiu em conversa entre blogueiros, foi assumida pelo Centro de Estudos da M\u00eddia Alternativa Bar\u00e3o de Itarar\u00e9, que procurou o Sindicato dos Jornalistas e este aceitou sediar o evento.<br \/>\nA sociedade sabe que o local ideal para este debate \u00e9 o Sindicato dos Jornalistas. N\u00e3o apenas porque os jornalistas s\u00e3o parte importante nesse processo, mas, principalmente, pela tradi\u00e7\u00e3o da entidade em ser um espa\u00e7o democr\u00e1tico aberto \u00e0s diversas manifesta\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e de interesse social.<br \/>\nO que est\u00e1 em discuss\u00e3o s\u00e3o duas concep\u00e7\u00f5es opostas, uma que considera a informa\u00e7\u00e3o um bem privado, pass\u00edvel de uso conforme interesses pessoais e outro que entende a informa\u00e7\u00e3o como direito social, portanto, regulado por um &#8220;contrato social&#8221;, exatamente como acontece com a sa\u00fade ou a educa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nTer direito de resposta, garantir espa\u00e7o para que o contradit\u00f3rio apare\u00e7a, impedir o monop\u00f3lio da m\u00eddia, tornar transparente os mecanismos de outorga das empresas de r\u00e1dio e TV, destinar parte da verba oficial para pequenos ve\u00edculos, criar a rede p\u00fablica de comunica\u00e7\u00e3o, regulamentar as profiss\u00f5es envolvidas com a m\u00eddia, n\u00e3o s\u00e3o atos de censura, s\u00e3o movimentos em defesa da liberdade de express\u00e3o e cidadania!<br \/>\nO grupo dos liberais quer, a qualquer custo, impedir que o conceito de direito social seja estendido \u00e0 informa\u00e7\u00e3o. A confus\u00e3o feita entre liberdade de opini\u00e3o, de imprensa, de informa\u00e7\u00e3o, de profiss\u00e3o e o conceito de censura e de controle p\u00fablico \u00e9 intencional. Essa confus\u00e3o \u00e9 vis\u00edvel na argumenta\u00e7\u00e3o utilizada pelo Ministro Gilmar Mendes para acabar com a necessidade do diploma de jornalismo. O objetivo \u00e9 impedir que as ideias por tr\u00e1s das palavras sejam claramente entendidas pelo cidad\u00e3o e, assim, interditar qualquer reivindica\u00e7\u00e3o popular nesse campo.<br \/>\nA liberdade de imprensa \u00e9 o principal instrumento do jornalista profissional. N\u00e3o \u00e9 propriedade dos propriet\u00e1rios dos meios de comunica\u00e7\u00e3o. O verdadeiro ato em favor da liberdade de imprensa \u00e9 feito em defesa do jornalista e, por consequ\u00eancia, diminui o poder da empresa. O problema \u00e9 que, a exemplo do que escreveu George Orwell no livro 1984 quando criou a novil\u00edngua (que pretendia reduzir o vocabul\u00e1rio, eliminar sin\u00f4nimos e fundir palavras para diminuir a capacidade de pensamento), o conceito de liberdade de imprensa foi virado pelo avesso e, uma vez apropriado pela empresa de comunica\u00e7\u00e3o, passou a diminuir o papel do jornalista obrigando-o a se submeter \u00e0s engrenagens do poder empresarial. N\u00e3o \u00e9 por acaso que existe a frase, ao mesmo tempo tr\u00e1gica e engra\u00e7ada, de que apenas existe &#8220;liberdade de empresa&#8221;.<br \/>\nN\u00e3o \u00e9 por acaso que o debate sobre liberdade de imprensa e democratiza\u00e7\u00e3o da m\u00eddia est\u00e1 presente na campanha eleitoral deste ano. N\u00e3o \u00e9 uma briga entre partidos ou candidatos, \u00e9 uma quest\u00e3o bastante difundida na sociedade e que exige posicionamento p\u00fablico das autoridades. A Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Jornais &#8211; ANJ est\u00e1 preparando um c\u00f3digo de autoregulamenta\u00e7\u00e3o para a imprensa que vem, exatamente, no sentido de fazer algo para impedir que o Estado ou a sociedade organizada o fa\u00e7a. Lembremos das palavras do escritor Giuseppe Tomasi di Lampedusa, em O Leopardo, &#8220;mudar para continuar igual&#8221;.<br \/>\nO debate p\u00fablico precisa ser aprofundado e ele n\u00e3o ser\u00e1 feito com preconceitos ideol\u00f3gicos, mas, sim, a partir de an\u00e1lise apurada da realidade e das necessidades da democracia que, penso, n\u00e3o se concretiza sem o chamado &#8220;contrato social&#8221; que regra a atividade humana, impedindo que os mais fortes destruam os mais fracos. Estamos clamando pela verdadeira liberdade de imprensa, pela \u00e9tica profissional e pelo direito do cidad\u00e3o de informar e ser informado!<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Jos\u00e9 Augusto Camargo<\/strong> \u2013 presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de S\u00e3o Paulo e secret\u00e1rio geral da Federa\u00e7\u00e3o Nacional dos Jornalistas (Fenaj)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O conceito de golpe midi\u00e1tico ganhou notoriedade nos \u00faltimos dias. O debate \u00e9 p\u00fablico e parte da constata\u00e7\u00e3o de que setores da imprensa passaram a atuar de maneira a privilegiar uma candidatura em detrimento de outra. \u00c9 leg\u00edtimo &#8211; e desej\u00e1vel \u2013 que as dire\u00e7\u00f5es das empresas jornal\u00edsticas explicitem suas op\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, partid\u00e1rias e eleitorais. 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